sábado, 13 de abril de 2013

Bilhetinho


Finalmente ouvi a música de que tanto falavas. Adorei. Fiquei a me perguntar se você, ao me falar dela, já sabia que eu iria sorrir ao ouvi-la... Conheces-me tanto assim, ou essa foi uma daquelas coisas aleatórias e belas que sempre nos acontecem?  De uma forma ou de outra, saibas que eu aprecio não só o fato de me conheceres e compreenderes como mais ninguém, como também o absurdo do destino ser teu cúmplice e conspirar sempre a teu favor. Parece-me que ele trabalha ao teu lado para que eu guarde de ti apenas lembranças lindas. A própria palavra “beleza” já parece com teu riso. Mas, voltando à música, saiba que além de me fazer rir, ela fez nascer em mim uma vontade grande de dançar... Danças comigo? Mas eu quero dançar como quando menina, no meio da rua, na chuva, numa roda, sem medo da felicidade. Sem perspectivas de me machucar e rindo do barulho dos pingos caindo ao meu redor. Sabes que chuva sempre me fez sorrir. 

quinta-feira, 7 de março de 2013

Poeminha


Ilustração: Érica Rodrigues
O homem lírico pega a poesia pela asa e tranca no papel
Prisão preventiva.
Vai que a danada resolve fugir, se esconder
Pra não correr esse risco, melhor prender. 
Na gaiola do papel tem espaços grandes entre as barras
Dá pra ela ver o mundo
E vice versa
Ele gosta de trancar também o sol
O mar
E aquele beija-flor que vem na sua janela de manhã.

O homem lírico queria trancar a sua tristeza no papel
Mas a tristeza é grande
E o homem lírico faz força pra ver se ela cabe
Mas não cabe.

O homem lírico viu um absurdo na rua
Pensou em trancá-lo no papel
Mas que serventia tem um absurdo preso?
Tem que estar solto ao vento,
Pra ver se em algum voo bate na cara de quem possa dar fim a ele.


*Obs: Finalmente eu consegui colocar em prática o meu plano de ilustrar algum texto aqui do blog. Amém! 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

De pedaço em pedaço é que se faz ternura


Hoje choveu Passado o dia inteiro. Pra falar a verdade, o Passado veio me buscar ainda em sonho, soprou um vento gelaaado que me perturbou o sono e tanto fez que me acordou. Achei que fazendo suas vontades e me pondo de pé ele iria embora, mas não... O danado grudou em mim que não me largou um minuto.
Não sei se os passados alheios são assim, mas o meu fica mancomunado com a chuva, faz pacto com o sol e complô com estrela cadente. E hoje ele usou de todos os seus comparsas pra me tirar o sossego.  Suspeito que até meu coração – traidor por excelência – participou da palhaçada.
E foi nessa de Passado psicopata e perseguidor que eu me dei conta de pra onde está indo o meu Presente. Pois não é que o danado parece querer enveredar pelos mesmos caminhos?! Na certa deve ter ouvido o Passado contar a nossa penosa história e ficou interessado. Mas, sinceramente, não sei como ele pode se sentir atraído por essa ideia .. O final da história é triste e o seu correr muito sangrento. Parece que ele gosta mesmo é de sangue, de violência, de ver o circo pegar fogo. E sangue alheio não serve não, tem que ser o meu, que tem a cor do vermelho mais viva.
Depois que fui acordada pelo vento frio que o Passado soprou, o Presente me pegou pela mão e me levou pra ler um livro. E lá bem pela metade das páginas estava escrito bem grande “de pedaço em pedaço é que se faz ternura”. O Presente foi e me apontou a frase com o dedo, mas não precisava pois eu já tinha lido. 
Passei o resto do dia vendo a chuva que caiu sem pausa (obra do Passado que deve ter pedido isso a ela como pagamento de algum favor) e pensando na tal frase. Por que será que o Presente fez questão de me mostrá-la? Pensei, pensei e por fim cheguei a uma conclusão: ele estava se justificando. Se é de pedaço em pedaço que se faz ternura, então é por isso que eu estou assim tão incompleta, em carne viva.
O bendito vai costurando a ponto cru os pedaços da ternura pra poder me juntar inteira no final. Mas ele é relaxado, tranquilão demais, não tem pressa de terminar o serviço... E enquanto ele não termina, eu vou derramando o meu sangue que tem o vermelho mais vivo e que ele acha bonito. Ou acha bonito ou tem inveja da história que ouviu Passado contar e quer fazer melhor, quer derramar ainda mais sangue e costurar sem correria pros pedaços ficarem bem pregadinhos. Sei que no fim essa ternura vai me custar uma dor danada e litros e litros de sangue e vida pra ficar inteira. Cuidado, Presente, se você demora demais a deixar a ternura prontinha pra a gente usar e abusar dela, pode não dar tempo... Pode um de nós dois morrer primeiro ou simplesmente desistir do outro. 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Sobre velhos, sabiás, corrós e galos de campina


A segunda morada da minha alma é um casarão vizinho ao meu. Nele vivem um velho, um menino, um Colibri e um Carcará. No jardim, cheio de roseiras mais espinhosas que floridas, há uma cerejeira em flor. Muitas vezes as flores que caem da árvore são carregadas pelo vento até o meu gramado... São lindas e efêmeras, vivem muito pouco quando se desprendem da planta. Das roseiras eu não me agrado, há nelas uma aridez de espírito que me afeta.
Muitas vezes o menino vem me visitar. Chega de surpresa, toca a campainha e aguarda que eu abra a porta com um sorriso estampado no rosto. É uma criança de riso fácil e grande doçura. Quando aparece, me faz companhia por várias horas e quando se vai leva consigo metade das minhas aflições. Gosta de brincar com o Colibri e os dois parecem se feitos da mesma matéria e fluido.
O velho nunca sai de casa. Tudo que sei a seu respeito limita-se aos relatos do menino. Sei que gosta de ficar na cama, às vezes lê, pouco conversa e tem um péssimo humor. Antes de ontem o vi aparecer na janela, há em sua expressão qualquer coisa de fardo e cansaço.
Quem mais me preocupa é o Carcará. Há na natureza daquele animal tanta maldade e oportunismo que não sei como pode conviver com qualquer outro ser vivo. Às vezes temo pela segurança do Colibri... Ele é tão pequeno para estar à mercê de um espírito tão perverso! Minhas preocupações nesse âmbito são tantas que já sonhei com o corpinho morto do Colibri estendido no gramado e o Carcará a comer os olhos do menino.
A maldita ave gosta de pousar nos galhos da cerejeira (como que para macular a pureza da árvore) e olhar perversamente para a minha casa. A mim ele nunca fez nenhum mal duradouro, mas vivo a esperar por isso e sei que não tarda a ele me ferir gravemente. Não sei como podem esses espíritos tão diversos conviverem em paz. Há alguma divina ou maldita energia que os une em um só ser.
          A minha alma gosta de ficar na janela e esperar que o vento traga espontaneamente alguma lembrança do casarão vizinho... Seja uma flor da cerejeira, seja o Colibri a vir sugar o néctar de minhas flores, ou mesmo o menino que venha correndo a alegrar e colorir o meu dia.
Às vezes ela espera, espera, e nada vem. Nesses dias, então, ela reúne toda a sua coragem e adentra o casarão vizinho... Têm dias que a visita é boa, em outros a minh'alma sai de lá em carne viva. E quando assim o é, volta pra casa e vai esperar que os ferimentos cicatrizem, até que, por fim, perca o medo e volte ao casarão... Quem sabe não encontra doçura na próxima visita? Ela poderia facilmente nunca mais colocar os pés em tal lugar, mas aí é que reside a beleza de tudo. O poeta disse mesmo que amar é mudar a alma de casa... E mudá-la mesmo sabendo o que nos espera por lá.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Carta ao pássaro-sol

Caro, eu te vi passar voando por aqui mais cedo e o teu semblante meio sorriso, meio aflição me deixou pensativa. Preocupação contigo, talvez... Ou vai ver eu só me reconheci em você.
Hoje acordei resolvida a enfim montar a minha barraquinha aqui na frente de casa pra distribuir felicidade pros necessitados, mas a minha visão de você passando me fez mudar essa resolução para amanhã. Calma, você não me deixou triste! Não sabes que meu sorriso é muito fácil de chegar e minha tristeza vai embora com qualquer assopro de criança?! É verdade, não sabes... Esqueço sempre que você pousou aqui poucas vezes. Mas não te aflijas comigo, tuas aflições já estão de bom tamanho!
Quero que saibas que não és o primeiro pássaro com quem meus caminhos cruzam, outro veio antes de você e me ensinou tudo o que eu sei. Não te apresento a ele porque vocês são demasiado parecidos e acho que não se entenderiam bem. No entanto, sei que no fundo ele não vai se importar se eu te contar o que aprendi sobre a tua espécie.
Já percebi que encontrastes por aí uma flor muito bela (a mais bela de todas, estais a pensar) e que o néctar dela possui um sabor que teu paladar nunca sonhou que pudesse existir. Sei que ela te encantou com seu cheiro, cores, encantos, e que você não consegue ver nenhum atrativo em qualquer outra flor. Isso é natural, todos da tua espécie passam por isso um dia.
Sei ainda que a tua flor é um espinheiro-alvar e imagino que quando fostes polinizá-la algum espinho transpassou teu peito. Posso supor a dor que deves ter sentido e sei que no teu íntimo achas que ela valeu a pena... Pela beleza da flor, pelo seu néctar maravilhoso e pelo sentimento de ter algo tão difícil de conseguir.
Mas meu belo pássaro-sol, é preciso estares ciente que sempre que te aproximares dessa flor serás espetado por um espinho. Quanto tempo podes aguentar isso? Eu temo pelo teu bem estar e por isso escrevo essas linhas.
Peço que não faças como o pássaro da antiga lenda celta que canta até morrer. Não te entregues a esse espinho que te perfura as entranhas apenas pelo encanto dessa flor. Há muita coisa bonita dentro de ti para se perder assim. Se voares mais alguns meses, sei que encontras outra flor tão bonita quanto, ou mais... Nasceste para uma flor que te acolha, que tenha sido feita para ti em delicadeza, tamanho e beleza.
O pássaro celta não tem consciência de que morrerá graças àquele espinho que perfura seu peito e por isso canta até que lhe falte vida para fazê-lo. Porém eu estou aqui para te alertar do teu morrer futuro... Vai embora, pássaro-sol! Se não fores vais morrer aí entre esses galhos selvagens e sem que o mundo conheça a tua beleza.
É este o intuito desta carta, espero que não aches um atrevimento de minha parte. Amanhã vou distribuir felicidade e preciso do meu coração leve, por isso decidi escrever-te. Peço que penses sobre o que aqui escrevi e se achares que tem fundamento, sigas os meus conselhos. Se não, espero que isso não te impeça de voltares à minha janela... Tua companhia faz muito bem ao meu espírito. Aqui me despeço, com votos de que sejas feliz.


P.S. Junto da carta vais achar uma caixinha, há dentro dela três sorrisos meus e um poema de Quintana... Eu sei que não é muito, mas espero que ajude a melhorar o teu semblante.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Conselho

- Escuta, vem cá! Eu te decifrei! Finalmente compreendi o enigma por trás do teu olhar! 
Quando teu espírito me disse "decifra-me ou devoro-te", eu relutei. Tive medo de me perder nas tuas metáforas (afinal, as minhas já me angustiam por demasiado!) e permiti que me devorastes. 
Fiz o caminho inverso. Usei esse  tempo em que fiquei escondida na penumbra úmida de tuas entranhas para te estudar e compreender. Escutei as batidas do teu coração de dentro, senti tua respiração passar por mim e vi teu sangue correr mais rápido em alguns momentos especiais. Percebi que foste feito para o amor e para a liberdade... E que os dois caminham sempre de mãos dadas inspecionando o funcionamento de todas as tuas células. Não existe soberania de um sobre o outro e a princípio isso me pareceu bom. Com o tempo, porém, comecei a entender a complexidade daquela relação. Teu amor é livre, moço! Não me pertence não... Quando criaram teu espírito o fizeram sem amarras de nenhuma espécie, então quem sou eu pra querer prender teu amor pra mim? 
Devia ter entendido isso logo a princípio. Teus olhos foram leais a mim e avisaram desde sempre, mas eu preferi que me devorastes a ver a verdade que estava ali, bem na minha frente. Essa pureza tímida e alegria contida que demonstras ao me olhar sempre me trouxe dúvidas. Achava que era só comigo que as usava... Doeu, moço, quando percebi que tua natureza é dividir o que tens de bom com todos. 
Decifrei que gostas de se arriscar, de sentir uma ponta de adrenalina vez por outra. Cativas a todos, mas nem todos te cativam. Gostas de jogar pistas a esses que conseguem galgar com sucesso a jornada até teu coração. Por que não falas, moço? Por que não cantas? Por que complicas tudo? Por medo é que não é, pois se teu sorriso espanta todos os meus medos, o que não já terá feito aos teus? 
Tu não serves de inspiração. Não foi pra isso que te criaram. Eu é que sou teimosa e te uso sempre do jeito errado... Mas calma, agora que te decifrei vou tentar fazer direitinho! Fui eu quem nasceu pra ser inspiração. Eu e meus medos loucos, minha alegria inconstante e espalhada, somada a essa paixão pela vida que tenho.  A minha capacidade de fazer tudo ao léu e de qualquer jeito, estabanar as coisas e colocar a vida (colorida) de pernas pro ar. 
Tu, por outro lado, nasceste foi pra pegar a inspiração pela goela e fazer dela arte. Usa essa tua calma pra arrancar sorrisos tortos! Bota o calor dos teus abraços nas palavras! Há tanta prosa e poesia dentro de ti, rapaz, que faz gosto de se ver! Devias botar tudo isso pra fora e seguir teu destino! 
Eu digo isso porque estive no teu íntimo e vi por lá toda sorte de contos, crônicas, sonetos e sextilhas. Bota isso no papel, moço, que o mundo merece ler! Usa o papel como teu aliado sempre. Não precisas de sentimentos fortes pra escrever, nasceste pra amar e pra falar de amor. 
Agora que te decifrei, não faças como a esfinge. Não te mates, que a morte tem pena de te levar. 
Foge de mim, moço! Corre! Vai embora enquanto é tempo! Se ficares ou eu te mato devagarinho ou tu morres por si só. Não penses em mim, não olhes pra trás, apenas corre o máximo que tuas pernas aguentarem.
Meu coração é terra de nascer roseira, até tem qualquer coisa de bela, mas tem espinhos e aguenta muito sol e pouca chuva. Tenho medo que te fures, te machuques ou morras de sede ou calor. Se a gente mistura a minha terra com a tua faz medo não nascer mais nada, faz medo você não vingar. 
Vai logo embora, que eu nasci pra aprisionar e tu para seres livre. 

sábado, 1 de dezembro de 2012

Ladrão de amor


Manhãs felizes sempre tinham gosto de abacate. Agradava-se de associar o “humor do dia” aos sabores de que gostava, ou que execrava. Noites maravilhosas tinham sabor de chocolate, tardes bucólicas de café com leite e manhãs chuvosas tinham gosto de aveia. Esquecia muito rápido das tristezas e mais ainda das alegrias. Possuía um humor que se metamorfoseava inúmeras vezes dentro de poucas horas. Era absurdamente simples arrancar-lhe um sorriso frouxo e muito difícil roubar-lhe uma lágrima. Chorava apenas de raiva.
            Em outra vida chorara de decepção. De amor. A vida que levava agora, no entanto, não permitia esse tipo de capricho. Quem rouba amor não deve chorar. Um ladrão nunca deve criar expectativas, deve encarar a vida em sua secura e lambuzar-se com o que conseguir levar dela.
Por vezes, parava para pensar que em sua outra vida acharia muito triste a situação em que se encontrava agora. Roubando afeto, afago e amor... Quem diria! Pensava muito em sua outra vida e sabia que um pouco do seu antigo eu ainda estava ali escondido. Policiava-se quando sentia esperança. Esperança para que? Inútil! Deixara a esperança guardada numa antiga caixinha de biscoitos no guarda-roupa de sua outra vida. Nunca mais voltaria ali para buscá-la, sua nova existência não permitia aquele tipo de sentimento frágil.
Expurgara sua vida de tudo que era frágil. Não devem existir ladrões frágeis. Ladrões de amor, então, muito menos. Agora era forte, botava banca, ia lá, pegava o amor pelos colarinhos e o levava. Usava, se deleitava, aproveitava. Depois voltava pra casa de braços dados com a solidão, companheira de cama e bar.
Odiava frio e domingos. A junção dos dois então lhe causava ânsias. O frio era cruel para gente daquele tipo, solitária, e o domingo melancólico. Fingia, no entanto, que a melancolia nunca havia cruzado a soleira de sua porta. Mentira!
Mentira? E o que era verdade naquela vida de faz de conta? Talvez o frio fosse verdade... Sim, o frio era real! A solidão também... Ela era palpável e sempre presente, só podia ser real. E, por fim, devia ser real aquela vontade que sentia de beijar as costas nuas do amor roubado... Isso sem a menor dúvida era de verdade, afinal de contas a impossibilidade de aquilo acontecer doía demais. Dor é sempre realidade.