terça-feira, 8 de setembro de 2020

Nina assassina

É tudo culpa da adrenalina, noradrenalina, feniletilamina, dopamina, oxitocina, serotonina e endorfinas. O fato é que essas 'ninas' têm posto a minha vida de ponta cabeça. Espremem o meu coração aos risos, embaralham a minha mente com suas brincadeiras tolas e me fazem sentir uma marionete em suas mãos.
Sei que as 'ninas' não agem sozinhas. É preciso sempre um mandante do crime, um cabeça que lhes diz de que maneira elas devem perturbar a minha paz. 

Sim, sei que você acha exagero chamar de crime, mas é o que me parece. Tenho sofrido por dia pelo menos oito infartos sentimentais. É preciso apenas o cheio, o olhar ou a simples lembrança do mandante para que as 'ninas' ponham-se a trabalhar em sua baderna habitual e façam meu coração ficar apertado e ameaçar parar.

Sei que vais dizer que meu coração é o sujeitinho mais facilmente influenciável do mundo. Vai ver até é. Mas o coitado não o faz de propósito, apenas não é capaz de fazer resistência a uma alma bonita, um sorriso espontâneo e três ou quatro versinhos. Se forem de Quintana, então, está perdido.
E as 'ninas', estas fáceis, entregam-se a qualquer mandantezinho que apareça, sem fazer objeção. Parece até que querem liquidar o meu juízo.

Eita, deixa eu ir ali que tem um samba liiiindo tocando, daqueles que o mandante ama, e as 'ninas' estão me arrastando à força pra lá. Não posso evitar. Não, pera, acho que o mandante está por lá... Não posso vê-lo. Pronto, vi. Meu coração parou.   

8 de dezembro

Lembro que da primeira vez que te vi me senti intimidada pela tua aura intelectual e extrovertida. 

Eu não sabia que dava pra ser as duas coisas ao mesmo tempo. 

A eterna menina do canto da sala ficou encantada com toda aquela luz e inteligência.


Eu sempre tive ganas de te desbravar. 

Queria entender o que passava numa mente que diz coisas tão fascinantes. 

Queria saber como canalizar a minha energia vital esbravejando piadas-cabeça que fazem rir até quem não as entende.

Acima de tudo, queria poder estar mais próxima de ti. Queria poder pra sempre segurar as tuas mãos sedosas entre xícaras de café e pratos de cartola e rir, rir, rir...


Te pesquisei no Google com poucos resultados. Você não deixa rastros virtuais. 

Talvez acabe virando o novo Jayme Ovalle, uma presença silenciosa (ou nem tanto) entre os holofotes, mas muito mais brilhante do que eles.


Descobri que o seu programa na rádio ia ao ar hoje e ouvi pela internet. 

Que vazio de saudade ao te ouvir e sentir que você vive, respira e palpita.

A tua voz me lembrou um passado que enterrei bem fundo.

Eu não queria te enterrar com ele, mas a dor era tanta que precisei deixar tudo pra trás.


Nos últimos tempos me senti visceralmente sozinha e roguei por um amigo.

Então você veio, num sonho, e me fez rir. 

Acordei com um vazio quente no peito, daquela saudade risonha que dói mais do que todas as outras.


Não aguentei, me traí e te escrevi.

Você não sabe quantas lágrimas derramei ao digitar aquelas palavras.

Saíram aos borbotões, como se alguém as ditasse no meu ouvido...


Passei o dia num torpor nem feliz, nem triste.

Um torpor de saudade boa e profunda.

Escrevi essas palavras (que você certamente achará piegas) para desafogar o coração...


Não sei o que passou nos últimos tempos, amigo

A minha memória me falha e agradeço a bondade dela

Me perdoa por algo que disse ou fiz, mas não me lembro.

Dos últimos 10 anos nessa cidade alheia, você foi o único que nunca me feriu

Queria poder retribuir a gentileza.



Érica Rodrigues

08 de setembro de 2020 às 20h52




terça-feira, 14 de julho de 2015

Uma flor nasceu!

 As notícias são tão empolgantes que mal consigo pensar em como introduzi-las. Eu, que falo pelos cotovelos, vejo-me sem encontrar palavras para expressar tudo o que me vem à mente. Não sou dada a rodeios, mas a ocasião é demasiado especial para evitá-los. Há algum tempo que me privo de dar esta boa nova.
Em algum lugar que não sei chegar, entre esses quase 800 mil habitantes dessa cidade que nunca para, há coisa bonita guardada. Há telefonema de longa duração. Há risada fácil e conversas que duram horas. Em algum lugar há brilho nos olhos, lágrimas e palavras de carinho.
Uma flor sorrateira furou o asfalto e venceu a melancolia dos crimes noturnos, dos carros solitários que passam na madrugada. Uma flor, aos poucos e muito lentamente, nasceu. Mas diferente da de Drummond, ela é bela.
E de repente, como que contagiados pela beleza daquela florzinha frágil, todos parecem mais sorridentes. Até os que não sorriem parecem mais felizes. Os feios parecem bonitos e os bonitos parecem a mais bela criação dos céus.
Quando eu menos esperava, a cidade me trouxe novidades. E não achem que exagero, pois as flores raramente florescem onde não devem. Ouvi dizer que os pássaros desistiram de migrar, apenas para ver a bela flor que nasceu aqui.
Infelizmente, eles não a verão. Faz-se necessário guardá-la para sua própria proteção. A sua fragilidade é tamanha que não pode ser exposta. Ouvi dizer que foi guardada sob uma redoma, para evitar que os olhares perversos a façam murchar. Mas eu, que vi a flor nascer, garanto que mesmo secretamente, sua beleza é a mais pura que posso conceber.

domingo, 17 de maio de 2015

Janta

Só podia ser o destino. Desde a forma como as coisas se desenrolaram para que aquelas duas pessoas acabassem juntas, até o par improvável, mas perfeitamente completo, que os dois formavam. Tudo levava a crer que fora o destino, com suas peripércias, que os trouxe até ali.
 À primeira vista, um observador desavisado provavelmente não seria capaz de ver muitos motivos para aquele relacionamento. Afinal, o que aqueles dois tinham em comum? Talvez apenas o encanto por descobrir e compartilhar coisas novas. Mas os dois sabiam que o ponto era esse.
Poderiam conversar por horas sem nunca faltar assunto, pois os seus mundos eram tão diversos e fascinantes que sempre havia experiências a dividir, novidades a contar, coisas a ensinar.
Entre eles não havia aquela disputa própria dos egos jovens, de quando alguém vem cheio de animação compartilhar uma descoberta sensacional, e recebe como resposta apenas aquele tradicional e desinteressado "legal, mas você devia conhecer na verdade isso aqui, pois é maravilhoso!".
Nada além do destino poderia ter reunido aquelas almas afins, tão diferentes e tão perfeitas entre si. Nada além dele, com seu poder supremo, poderia separá-las. Já estava escrito o quanto eles seriam felizes e quantas lágrimas seriam derramadas. E a cada lágrima, restava a dúvida se seria aquele o dia que o destino reservou para separá-los.
Mas hoje, sentados naquela mesa de jantar, com desconhecidos à sua volta, o futuro parecia nebuloso. Olhando assim, ela conseguia ver felicidade a perder de vista, com algumas ocasiões extremamente dolorosas aqui e ali. Mas afinal de contas, o que é a felicidade? Será um sentimento constante e diário, ou a certeza de que somando-se os dias bons e ruins, o saldo nos traz um sorriso nos lábios?
Olhando para ela e seu sorriso fácil, ele não conseguia conceber o que seriam os dias sem aquela presença solar para iluminá-los. A quem iria recorrer depois de um dia estressante de trabalho? Com quem iria conversar todas as noites? Eram perguntas impossíveis de responder.
Mas o garçom traz a janta e os dois engatam em uma conversa animada sobre seus fins de semana e um filme que passou na TV. O futuro, com seu caráter assustador, pode esperar. O destino que se encarregue de guiá-los. A preocupação com a felicidade futura não pode impedi-los de aproveitar a euforia de estarem juntos hoje.





 Destino: do grego, destinare, ou "aquilo que é firmemente estabelecido para uma pessoa".

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

O Círculo: um grande comentário satírico sobre a era da internet



Ganhei o livro "O Círculo", do autor Dave Eggers, de presente de aniversário e confesso que fazia tempo que uma leitura não me surpreendia tanto. O livro foi publicado no Brasil pela editora Companhia das Letras em 2014. A capa é de um laranja bem vivo e traz o nome do autor e do livro em verniz localizado preto, além do símbolo do Círculo em prata. As páginas são amarelas e achei o tamanho da fonte, espaçamentos e diagramação bons. 




Primeiramente, essa foi a primeira distopia que li. A história acontece em um futuro próximo não determinado, e a protagonista, Mae Holland, é uma novata no Círculo, uma empresa que incorporou os principais serviços de internet que conhecemos. Eles reuniram e-mail, conta bancária, redes sociais, serviços de compras online em uma única ferramenta, que cria uma identidade online única e que, por consequência, impossibilita o anonimato. 
O tema da transparência, seja na internet, seja na política, economia, ou até mesmo na vida das pessoas, é extremamente recorrente no livro. A protagonista sai de um emprego público, num lugar onde as pessoas mal sabem como usar a internet, e vai trabalhar no lugar onde "tudo acontece". O campus da empresa é descrito como o lugar dos sonhos de qualquer pessoa, com festas a qualquer hora, dormitórios ricamente equipados, academia, piscina e até mesmo uma "loja" onde os funcionários podem pegar produtos que ainda não foram lançados para testar. E de graça!
As pessoas estão cada vez mais deslumbradas com esse mundo de possibilidades, onde pode-se ter o que quiser, ser o que quiser. E o maior exemplo disso é Mae, que cresce muito rápido na empresa e toma um papel importante rumo ao compartilhamento cada vez maior de informações sobre tudo, inclusive a vida de todos, a todos os momentos. 




Não posso dar spoiler, mas apenas digo que parabéns a Dave Eggers, se a sua intenção era fazer o leitor refletir sobre até onde é saudável o compartilhamento de informações online. 
Digo apenas que tive um acesso de fúria quando terminei de ler o livro (sim, eu sou louca). Apesar do final não ser absolutamente o que eu esperava, acho que a leitura cumpriu sua função de fazer pensar.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

O Bilhete

"Todos os homens voltam para casa. Estão menos livres, mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem". A moça sozinha, sentada na mesa do canto do restaurante, fez-me lembrar estes versos do poema de Drummond. Em sua visível solidão, ela parece perder absolutamente tudo o que se passa ao seu redor, enquanto mexe desanimada em seu prato de comida italiana. Perco completamente o fio da conversa animada que se passa entre os meus amigos, tão concentrado que estou na moça de expressão triste sentada na mesa do canto.
De minuto em minuto ela larga a sua contemplação da rua, através da janela de vidro, e olha o celular. Não consigo ver o que faz nele, de onde estou sentado, mas imagino que deva estar conferindo as mensagens ou algo do tipo. Ela parece bem ansiosa em sua espera. Imagino se o que faz a moça tão solitária e desanimada é algum caso de amor... Reconheço na sua expressão um pouco de mim, em um recente momento de dor em que perdi um grande amor.
Mal completo o pensamento e ela pega o celular mais uma vez e sorri pra ele, começando a digitar frenteticamente. Imagino que quem fazia a moça tão triste antes, finalmente apareceu. Mas sua alegria parece durar apenas alguns poucos minutos. Depois de digitar freneticamente por um tempo, ela larga o celular na mesa e fixa o olhar, pela janela, na avenida movimentada fora do restaurante. Finjo que vou jogar um copo descartável no lixo apenas para chegar mais perto dela e ver melhor o seu rosto. Não sei o que me causou tanto interesse nela, talvez a sua solidão violenta. Ao me aproximar, percebo que duas lágrimas escorrem em seu rosto.
Resolvo de supetão tomar uma atitude e falo com ela.
"- Moça, boa tarde, posso me sentar aqui?"
Ela apenas limpa os olhos com as costas da mão e me olha surpresa. Sento-me sem permissão, mas ela levanta e me diz, com muita tristeza na voz:
"- Sinto muito, estava esperando alguém que não vai aparecer. Boa tarde..."
E com isso vai embora, deixando-me completamente sem ação. Fico me perguntando porque falei com ela, porque maculei o seu momento tão íntimo de solidão, aparentemente muito necessária. Meu olhar então é atraído por um papelzinho amarelo amassado ao lado do prato, com uma refeição quase completa. Percebo que é um barquinho de papel que foi amassado. Abro sem pensar e vejo que nele há um bilhete escrito em uma letra miúda e bem desenhada.
"Meu bem, muito beijo pra você por ter me tirado da monotonia dos fins de semana. Quase não acredito que vamos nos ver em pleno domingo... Eu não sei se você vai acreditar no que vou dizer, mas acho que te amo."

terça-feira, 29 de abril de 2014

Porque era ela. Porque era ele

Gostava dela porque era ela. Porque era eu. Por mais que eu não soubesse nada das poesias que ela gostava, dos livros que lia ou das músicas que ouvia, de algum jeito torto aquilo tudo fazia muito sentido. A gente se entendia tão bem que parecia coisa que era pra ser. E se fôssemos pensar direito, nada era muito do jeito que devia ser. Havia uma coisinha "fora do lugar" em cada compartimento daquela história. Não tínhamos motivos específicos, algo para servir de desculpa ou explicação. Estava com ela porque era ela. Porque era eu. Se ela fosse menos cabeça dura, talvez eu não gostasse tanto daquele jeitinho que era capaz de me colocar no meu lugar de vez em quando, por mais que ela parecesse frágil demais pra isso. Talvez se não fossem aquelas frases feitas, que sabe-se lá onde ela ia buscar para usar em momentos muito específicos, eu não fosse capaz de ficar tanto tempo contemplando o seu jeito de falar. Talvez se ela não tivesse a mania de corrigir a todos, eu não achasse tão engraçada a forma como ela não conseguia esquecer a gramática nem nos momentos mais inusitados. Talvez se ela gostasse das mesmas músicas que eu, fazê-la cantar algo que eu sei que ela jamais cantaria na frente de outra pessoa não fosse tão deleitante. Talvez se ela não mudasse de humor tão rápido, eu não teria aprendido a apreciar seus sorrisos e a aprender sempre com suas frases cortantes, diretas. Talvez se ela tivesse juízo e não fosse tão aberta a aceitar qualquer loucura que me surgisse à cabeça eu não ficasse tão empolgado com o mundo de possibilidades à nossa frente. Afinal, me divertia com ela porque era ela. Porque era eu.

***


Gostava dele porque era ele. Porque era eu. Não sei como posso encontrar uma explicação mais exata que essa. Não tinha motivos específicos, gostos em comum ou algo do tipo. Eu gostava do seu jeito e ponto. Estava com ele porque era ele. Porque era eu. Talvez se ele soubesse muitas palavras belas para me recitar eu não ficasse tão desarmada com o seu jeito simples de me fazer sorrir. Talvez se ele soubesse tudo de literatura nós não passássemos tantas horas leves conversando sobre coisas que eu não domino absolutamente. Talvez se ele não fosse tão aberto a aprender comigo eu não me divertisse tanto tentando encontrar coisas boas para ensiná-lo. Talvez se ele fosse mais parecido comigo, a gente não tivesse feito tantas loucuras juntos e a nossa encrenca não fosse tão boa. Talvez se ele não se importasse tão mais do que eu com as outras pessoas ao nosso redor, as coisas não já tivessem saído do controle há muito tempo. Talvez se eu não tivesse sido tão mandona a ponto de estipular regras e prazos, eu não tivesse sido a primeira a descumpri-los. Talvez se ele ouvisse Chico Buarque, a gente não tivesse noites tão mais divertidas. Talvez se ele fosse uma coisinha sequer diferente do que é, ou mais parecido comigo, eu não estivesse tão encrencada. Afinal, amava ele porque era ele. Porque era eu. 


domingo, 13 de abril de 2014

Sei não...

Na minha frente, um provável futuro músico brilhante me fala de seu interesse por violão clássico e Villa Lobos. Há mais ou menos meia hora ele tem tagarelado, embalado pelo enorme copo de cerveja que segura na mão esquerda. O observei desde que cheguei na festa, e agora cá está ele, falando de seus interesses pra mim.
O engraçado é que não consigo prestar atenção no que ele diz. Quanto mais a conversa passeia por música, literatura, cinema, mais o meu pensamento vaga pra longe, para aquela madrugada na praia, quando sentamos na areia e conversamos algo que eu não lembro o que foi, de tão nervosa que estava com a sua presença. Deve existir qualquer coisa de outra vida nessa sua capacidade de me fazer sentir leve e me divertir. Definitivamente, ninguém mais é capaz de me persuadir a cantar sertanejo ou assistir a um dvd de forró.
Acho que a questão está mais no fato de que me encanta esse teu jeito aberto a aprender comigo, por mais que eu pense que não tenho nada a ensinar. Muito pelo contrário! Eu que tenho aprendido muito contigo. Uma aula diária e completa sobre ser feliz e nivelar a vida por cima.
O primeiro ensinamento que recebi, lá pelos primeiros raios de sol daquela primeira madrugada que passamos conversando, foi que eu ia precisar me preocupar menos com as coisas. Constatei que é inútil viver todos os dias uma rotina certinha, fazendo tudo certinho. A felicidade às vezes é toda erradinha, e a gente precisa aprender a pegar ela pela asa e aproveitar.   
 Liguei o foda-se. E não pense que eu já tinha feito isso antes. Essa ideia era apenas uma teoria que ainda não tinha encontrado o terreno propício pra germinar. Na verdade eu nunca tinha encontrado alguém por quem valesse a pena solenemente ligar o botão foda-se.  Mas agora que aprendi o caminho, não sei como fiquei tanto tempo sem usar desse artifício, sem me divertir como só me divirto quando estou com você.   
Agora não me resta muito a fazer além de aproveitar cada minuto roubado que posso passar contigo. Acho que o futuro é quem sabe onde isso tudo vai parar. E por mais que essa frase seja clichê, é a única certeza que tenho. Deixa o destino dizer quanto tempo de felicidade ainda temos. Já tentei colocar prazos na felicidade e percebi que ela é maior que isso, que ela é maior que a gente.
O provável futuro músico brilhante sorri pra mim, como que concluindo um raciocínio. Sorrio de volta e concordo, apesar de não ter ideia do que ele falou. Preciso ser simpática com ele, afinal a culpa de eu não ter ouvido nenhuma sílaba da conversa é sua, que toma meus pensamentos em tempo integral. 

sábado, 22 de março de 2014

Vermelho

Às vezes eu só quero sentar em silêncio e ouvir o som da cidade. O fato dela estar sempre em movimento ao mesmo tempo me fascina e assusta, e fico me perguntando se há lugar para a felicidade em meio a toda essa correria. 
A cidade é tão bonita ao entardecer que sinto algo que não sei nomear crescer dentro de mim  e ameaçar sair pela boca. Talvez seja o meu coração, querendo deixar a turbulência do meu peito e ganhar o mundo. Esse mundo que consegue ser infinitamente belo e cruel. Se o meu coração soubesse o quanto a turbulência do meu peito é um lugar seguro, não iria querer sair de lá nunca. Mas a gente sempre quer o que não tem. 
Eu, por exemplo, que por tanto tempo estive escondida no fundo de mim, agora tenho impulsos constantes de sair pela cidade a te procurar. Agora já não me basta mais sentar na varanda e ver as cores com quem o fim de tarde pinta o céu. Se você não telefona, não aparece na hora combinada, eu perco o medo do mundo e quero ir te encontrar. Essa é uma sensação tão forte que ameaça fazer o horizonte romper. Talvez o vermelho do entardecer escorra qual sangue quando isso acontecer. 

Mas então você reaparece, e a simples consciência de que você quer saber de mim faz tudo parecer bonito de novo. E me pego encantada com as luzinhas dos carros na avenida congestionada e com os sons da cidade que pulsa viva, muito viva, como eu. 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Madureza

Deus me deu um amor no tempo de madureza. 
Sei que ou colho logo estes frutos 
Ou logo virão os vermes a lhes comer as entranhas.

Dizem que todo amor merece ter uma chance de florescer
Mas amor que nasce como erva daninha
Em cima de árvore velha e bonita
Merece?

Vais dizer, eu sei, que os frutos do amor no tempo de madureza
São doces
De fato. 
Tão doces que não consigo deixar de sorrir ao lembrar

Quão doces serão os frutos da árvore velha
Onde floresceu esta erva daninha?
Serão doces ainda?
Será que azedaram? 
Será que os vermes já comeram tudo?

Deus me deu um amor no tempo de madureza.
Como pode um amor trazer tanta inquietude? 

Parece-me que lá fora há dois milhões de habitantes
Como disse o poeta
E cá estou, só. 

Deus me deu um amor no tempo de madureza 
E que direito tenho eu de colher-lhe os frutos?

Melros cantam lá fora 
Já amanheceu.
A manhã, ingrata, trouxe tanta sobriedade... 

domingo, 1 de dezembro de 2013

Amizade ou a vida com adornos

Li que, em sua etimologia, a palavra amigo deriva de animi (alma) e custas (custódia), sendo 'amigo' um 'guardião de alma'. Esse significado me pareceu extremamente apropriado. Acredito que quando criamos laços de amizade, entregamos aos amigos um pedacinho da nossa alma para que eles o guardem, bem protegido, consigo. No decorrer da vida, nossa alma acaba então espalhada pelo mundo, levada aos quatro cantos por guardiões que testemunharam e compartilharam nossos momentos bons e ruins.
Talvez por a um amigo ser confiada uma parte tão frágil e essencial de nós, perdê-lo é extremante triste e melancólico. E aqui não me refiro a perdê-lo para a morte. Quando a morte nos leva um amigo, o pedacinho da nossa alma que ele guarda vai junto, para lhe fazer companhia na vida eterna. Aqui me refiro à tristeza de perder um amigo para a vida. Aquele macabro ritual em que o guardião devolve a coisa que ele deveria proteger, mas não é mais capaz de fazê-lo. Às vezes nós queremos o pedacinho de alma que ele guarda de volta, mas em outras ele teima em devolvê-lo à força e não nos resta alternativa senão costurá-lo de volta, a pontos crus, muito dolorosamente. 
Eu não seria capaz de contar quantos pedaços da minha alma andam espalhados por aí. Não caberiam nos dedos e minha matemática nunca foi boa. De qualquer maneira, isso pouco importa. Importa-me mais saber onde eles estão guardados. Se em um lugar visível, se à cabeceira dos amigos, se esquecidos embaixo da cama, cobertos de poeira, ou em uma prateleira nunca usada... 
Hoje fiz uma faxina em mim, selecionei e limpei os pedacinhos de alma de que sou guardiã. Fui a uma loja de material de construção e comprei uma prateleira, instalei-a de frente à minha cama, em um lugar em que ela é a primeira coisa que vejo ao acordar. Lá coloquei os pedacinhos de alma, limpinhos e organizados.
Na faxina encontrei os amigos antigos que eu não vejo há muito tempo, mas que me fizeram muito feliz. Lembrei de como a gente vivia as coisas intensamente, de como éramos inconsequentes e radiantes. Achávamos que a vida era tudo ou nada, que as paixões eram as últimas que iríamos viver. Carinhosamente os enfileirei na prateleira, bem guardadinhos, para que eu possa lembrar todos os dias de tudo o que aprendi com eles.
Encontrei também os pedacinhos de alma dos amigos antigos que ainda estão ao meu lado diariamente. Que belas almas eles possuem! Vê-las assim, em sua simplicidade, me fez pensar na beleza das relações cotidianas, nos sorrisos partilhados, na cumplicidade não-verbal que se expressa em pequenos gestos e atitudes, na agressividade e na forma como nós nos protegemos, mesmo que inconscientemente.
Encontrei ainda os amigos que a vida me trouxe por acaso, quando eu não esperava nada dela. Por esses eu agradeço sempre, pois eles estão sempre comigo. São eles que me fazem gargalhar e neles eu vejo refletidos os meus sonhos. Um sentimento forte de admiração tomou conta de mim ao encontra-los. Muito longe de casa, a vida me apresentou a amigos que me ensinaram a tolerar as diferenças e até aprender a ver a beleza que existe nelas. A palavra ternura já se parece com eles.
Em um canto meio esquecido, encontrei algumas marcas queimadas. Com um pouco de tristeza constatei que eram os lugares dos amigos que se foram. Tentei lembrar dos bons momentos que partilhei com eles e senti muita tristeza pelo pouco talento humano para a grandiosidade.

Depois que terminei de organizar os amigos na minha prateleira, me sinto muito mais leve. Encontrá-los todos me lembrou do muito que aprendi e do quanto os admiro. E como são diferentes os amigos! Mas isso não importa, afinal as diferenças não podem ser maiores que os afetos. A grandiosidade da vida faz essas diferenças parecerem menores que poeira. A vida é muito maior que isso... A vida é muito maior que a gente. Enfrentar os dias parece uma tarefa bem simples agora.



*A Dan e Lucas que abriram a porta e a Carlinhos que, com o espírito do acendedor de lampiões de Jorge de Lima, tem teimado em acender a luz sempre que ela se apaga.

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Sobre amor, selvageria e liberdade

Acordo e percebo que esqueci de desligar a música. "É hoje o dia da alegria e a tristeza nem pode pensar em chegar!", cantam os meus fones de ouvido. Sorrio com a ironia daquela letra, justamente neste dia que não me parece nem um pouco alegre. Talvez seja importante acordar com essa mensagem de otimismo. Pelo menos a ironia serviu pra me lembrar que dias alegres existem com mais frequência do que consigo conceber agora.
Lembro que fui dormir ouvindo o Gonzaguinha cantar que pegou um sonho, desceu o Morro de São Carlos e pôs a perna no mundo. Ele achava que pertencia ao mundo! Essa ideia é tão familiar que até consegue me fazer gargalhar, neste dia tão pouco cavalheiresco.  Acho que ele também era ave de rapina... Quantas gaiolas será que deixou pra trás para sê-lo?
Já faz um tempo que encontrei uma águia com a asa quebrada e a trouxe pra casa. Tenho cuidado dela desde então. O problema é que acho que me empenhei demais nos cuidados... Acho que dei amor demais pra ela. Quanto mais cuido da águia, mais forte ela fica. Anteontem a vi olhando pro céu com semblante de sonho e saudade.
Quando criança tentei criar uma galinha d'água. Linda! E eu a amei tanto! A amei tão sinceramente que nunca cortei suas asas. Achei que seria crueldade cortá-las. E seria. Nunca cheguei a saber se ela também me amava, mas o fato é que um dia ela voou e se foi. Nunca mais a vi. Dela sobraram apenas algumas penas no lugar onde costumava dormir.
Muitos anos depois vi um personagem de cinema dizer que não devemos amar criaturas selvagens. Quanto mais amamos, mais fortes elas ficam, até terem forças pra voar até a árvore mais próxima e depois pro céu. Não fazem por mal, apenas é de sua natureza a liberdade. Elas pertencem ao céu e, a princípio, é isto que nos faz amá-las. Dizem que as mais belas coisas da vida são livres e selvagens. Acho que é verdade.
Parece que a asa da águia está cada dia melhor. Acho que não demora a ela alçar voo. Mesmo depois de todo esse tempo, da galinha d'água, do filme e tudo o mais, cometi o erro de dar meu coração a um ser selvagem. Sei que ela precisa ir, voar por aí e conhecer o mundo. Em seu voo solitário ela vai aprender muito, vai ser quem nasceu pra ser. Não adianta tentar mudar isso, afinal, é o que há de mais bonito nela. Espero que ela consiga mostrar para todos quanta beleza existe em seu âmago.
A águia acordou. Sua asa está boa, afinal. Ela me deu um último olhar e se perdeu no céu azul. Agora parece apenas um pontinho escuro, lá longe. Como está bonito o céu de hoje!



*Baseado em:
http://letras.mus.br/gonzaguinha/46266/
http://letras.mus.br/monobloco-musicas/768511/
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-2736/

sábado, 9 de novembro de 2013

Cinismo

Hoje ouvi do meu apartamento uma briga de casal. O relacionamento, pelo que pude perceber, acabara por uma traição da parte dela. Eles brigavam a plenos pulmões na frente do prédio, indiferentes a todos os moradores que os ouviam proferir ofensas e confessar intimidades.
O rapaz a acusava de tê-lo trocado por um cara rico e ela nem se dava ao trabalho de revidar. Na minha escuta, primeiro tomei partido do rapaz. Ele parecia muito magoado. No entanto, no auge da discussão ele começou a chamá-la de puta. Achei aquilo muito forte! E ela apenas ouvia, balbuciava uma ou duas palavras e se calava, enquanto ele gritava para a rua inteira o quanto a achava vagabunda. Senti vontade de gritar: “moça, diga alguma coisa! Não deixe esse cara te tratar assim!”, mas não gritei nada e ela aguentou as ofensas até o fim.
Fiquei me perguntando o porquê daquela moça ter se apaixonado por um cara que acabaria gritando coisas horríveis sobre ela para quem quisesse ouvir. Teria sido ele, no início de tudo, um gentleman? Duvido muito... Teria ao menos, ao longo do relacionamento, dado a ela uma flor? Teria ele usado a estranha e eficiente linguagem dos namorados de Drummond?

Imaginei quantas coisas bonitas eles deviam ter vivido juntos e que agora, naquele momento de raiva, nada significavam. Estava tudo esquecido e acabado. Cada um queria apenas sair fazendo o maior estardalhaço possível, batendo a porta e deixando pra trás muita bagunça e sofrimento. Se um dia eles se encontrarem na rua, muito tempo depois das ofensas gritadas na frente do meu prédio, será que irão sorrir um pro outro, se abraçar e perguntar “oi, tudo bem? Quanto tempo!"? Ou vão apenas fingir que não se viram ou não se reconheceram? Cartola disse que de cada amor a gente herda só o cinismo. Aquele casal desconhecido brigando me fez perceber que essa frase tem muito de verdade. 

domingo, 29 de setembro de 2013

E se eu morresse amanhã?

- Tenho medo de acordar qualquer dia desses e ter sessenta anos.
- Falta pouquinho mesmo! Só quarenta anos, três meses e quatro dias!
- Mas é sério. Os dias passam tão rápido e a gente os deixa ir mecanicamente, fazendo sempre a mesma coisa em todos eles. No fim, não vemos nada do mundo. Meu Deus, eu vou morrer sem ver nada do mundo!
- Você me lembra o poema do Drummond.
- Que poema? Ah meu Deus, mais uma coisa que eu ia morrer sem conhecer.
- Aquele 'A Flor e a Náusea'... "Todos os homens voltam para casa. Estão menos livres, mas levam jornais e soletram o mundo, sabendo que o perdem".
- É isso. Eu estou perdendo o mundo. Deixando ele ir embora... Prendendo-me apenas a pequenos fatos, insignificantes diante da grande ordem das coisas.
- Mas a gente ainda é tão novo pra se preocupar com essas coisas...
- Nada... E se eu morrer amanhã?
- Se você morrer amanhã eu prometo que não deixo tocar músicas do Roberto Carlos no seu enterro.
- Caramba, obrigada! Seria demais pra a minha memória! Diz pra mandarem um belo Vinicius de Moraes, um Canto de Ossanha... Se bem que não combina muito com enterros. Melhor, eu vou de 'Encontros e despedidas', que é mais a cara da ocasião.
- Só não garanto falar algumas palavras. Não tenho coragem de falar em público.
- Em público! Quantas pessoas será que teria no meu enterro se eu morresse amanhã?
- Que papo mais medonho! E voltamos aos poemas de novo! "Se eu morrer antes de você, faça-me um favor. Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por Ele haver me levado..."
- Vinicius pega meu coração e espreme como que a um limão.
- A mim também. Sempre acho que ele soube algo da vida que eu ainda não compreendi. Essa coisa meio visceral que existe no que ele escrevia me faz pensar que talvez eu não esteja vivendo com a intensidade que deveria.
- Será que um dia a gente sabe se viveu direitinho ou se desperdiçou uma encarnação fazendo asneiras?
- Talvez antes de morrer... Dizem que passa um filminho na cabeça. Vai ver ele nos ajuda a refletir sobre isso.
- Acho que a gente devia viajar, se encantar com as coisas. É tão importante se encantar com a vida. Sinto falta disso...
- Eu também. Quando eu era criança, a vida era como uma descoberta diária. Tudo me causava êxtase...
- Se amanhã eu acordar com sessenta anos, espero ver algo bem simples e me emocionar. Não quero ser uma dessas pessoas amargas que veem tv e esperam a morte vir buscá-las no colo, já que nem ânimo pra ir sozinhas elas têm.
- Acho que você não vai ser assim.
- Por quê?
- Porque você sorri com os olhos. E sorri de tudo, com uma verdade que eu nunca vi.
- Essa foi a melhor coisa que eu ouvi hoje.

domingo, 22 de setembro de 2013

A pequena

A risada dela tinha o poder de fazer o mundo parar por um segundo. Na verdade, o tempo, que sempre mostrou-se tão cruel, parecia passar muito devagar pra ela... A moça, quase uma menina, levava a vida como se fosse viver pra sempre, desperdiçando o tempo com coisas simples e sem importância.
Conheceram-se no carnaval. Ela dançava ciranda balançando o cabelo cheio de pequenas tranças, enquanto ele passava por ali, a caminho da casa de um amigo. Chovia e ela o notou alguns segundos depois dele percebê-la, e o sorriu. Foi aí que ele aprendeu que o mundo, que girava com tanta pressa, podia parar por alguns momentos. Acabaram sendo apresentados por um amigo em comum e começaram um relacionamento que tinha um quê diferente para cada um dos dois.
Ela divertia-se imensamente com a preocupação dele com coisas sérias. Ele achava fascinante e preocupante o jeito despreocupado dela levar a vida. Ela ensinou-lhe a trançar seus cabelos cor de abóbora e ele desenvolveu o hábito de trazer da rua sempre uma papoula amarela para colocar neles. Adorava a combinação de cores que se formava. Ela gostava de vê-lo com os cabelos grisalhos molhados, como quando se viram pela primeira vez.
Ele sempre fazia muitos planos para os dois. Ela, no entanto, jamais planejava nada. Gostava de ser livre, de andar descalça na areia e com os cabelos soltos ao vento. Ele sorria como quem sempre buscou se encantar com a vida, mas até ali só encontrara desencanto e feiura.
Passavam muito tempo juntos. Por ele, dobrariam o tempo e o guardariam no bolso, para poderem aproveitar a eternidade em paz. Mas ela gostava de usar algum tempo para si. Às vezes vestia-se lindamente, colocava batom vermelho e saía, deixando pra trás um coração de meia idade aflito e complacente. Sempre que isso acontecia, ele pensava se chegaria o dia em que ela não ia mais voltar. E lidar com tamanha liberdade de espírito consumia todo o esforço dele, que jamais havia se dedicado tanto a nada além de papeladas enormes.

A pequena ensinou-lhe a importância de se encantar com a vida. Foi com ela que ele aprendeu a apreciar o gosto de uma laranja recém tirada do pé e a beleza dos acordes de uma bossa. E quando um dia ela não voltou mais, ele soube perceber a beleza das coisas finitas e belas. Quando o tempo parou pra ela sorrir pela última vez, ele percebeu que as coisas podem ser ainda mais belas quando duram apenas o que podem durar. E ele colheu uma papoula no jardim da casa onde foram felizes e colocou nos cabelos dela, pra que eternamente as cores da flor e do alaranjado pudessem contrastar lindamente. 

*Baseado linda música do Chico:
http://www.youtube.com/watch?v=ZRLayH21Gnk&hd=1

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Tempestade

Deu na tv que vai chover de novo hoje.
Falaram que as pessoas estão fazendo romarias nas ruas e tudo o mais. Alegam que não suportam mais tanta água caindo e pedem a Deus que pare a chuva, pra ver se sobra alguma edificação em pé na cidade. Será que eu deveria avisá-los de que não vai adiantar?
Afinal de contas, apenas uma pessoa tem o poder de fazer a chuva cessar. E o combinado foi que iria chover até lavar toda a tristeza da cidade e trazer um você bem leve e sorridente pra mim...
Meu bem, em você ainda tem muita tristeza pra mandar embora com a água?
A chuva é camarada, disse que está comigo nessa até o fim, mesmo que precise carregar na enxurrada a Igreja de São Francisco e aquela estátua em homenagem ao Ariano, que ela ama. Tadinha dela, depois nem vou saber como agredecer a força. Mas tenho medo que depois de não sobrar tristezinha nenhuma, em lugar algum, você acabe achando algum sorriso por aí mais bonito que o meu. Pode até ser besteira minha, mas sempre fui assim meio pilhada com tudo.
Meu bem, vê se não demora a resolver essas suas pendências, tá?
Eu sei que não posso te cobrar muito, afinal, coração demora a sarar. O seu estava bem ruim, né? Naquele dia em que você me mostrou, ele estava todo cheio de espinhos que aquela rosa deixou. Mas se você os tirar com cautela, um por um, e depois lavar direitinho, acho que fica como novo. Se sobrar uma cicatriz ou outra eu nem vou ligar.
Meu bem, São Pedro tomou partido dos populares... Disse que não é direito a chuva estar tentando te arrastar pra mim. Como que a gente faz agora? Ainda demora pra você vir? Ainda tem muita tristeza na cidade pra lavar? Já acho os sorrisos bem mais bonitos agora, e o monumento ao Ariano e a igreja ainda estão de pé também. Acho melhor você vir agora.
Ele me perguntou de onde eu tirei essa ideia de lavar tristeza com chuva. Tive que contá-lo daquele dia no Chorinho, quando a chuva molhou todo mundo e fez brotar a alegria. Ele pareceu um pouquinho impressionado com a história, mas não mudou de ideia sobre fazer parar a tempestade.
Ajeita aí as coisas e corre pra cá! Baixei um filme do Carlitos e se brincar até canto pra você. Eu canto mal, mas a intenção é a melhor possível. Quem sabe umas risadas e a minha boa intenção não terminam de sarar o seu coração.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Amor-sussurro

Eu sempre achei que pra amar direito a gente precisava fazer barulho, gerar alarde. E fiz assim por muito tempo. Gritei por cima de telhados, publiquei nos jornais e revistas, coloquei anúncios nas rádios e compus canções. 
Mas um dia eu expliquei pra um moço desconhecido o que eu achava do amor e ele riu pra mim e balançou a cabeça negativamente. Não me disse, no entanto, qual era a sua opinião. O moço desconhecido virou um moço conhecido e nunca me falou as suas teorias sobre o amor. Acabei por descobri-las assim mesmo. Ele ama baixinho, como o Quintana mandou. Agora eu vejo que esse é um ótimo jeito de se amar. 
Sofri, chorei e aprendi a amar baixinho também, sem chamar atenção, tranquilamente. É bem menos visceral, mas infinitamente mais seguro e sólido. Esse amor baixinho consegue povoar os meus sonhos todas as noites e preencher os meus sorrisos todos os dias sem levar nenhum pedaço de mim, sem me ferir. 
Eu devia mesmo era ter ouvido o Quintana desde sempre, mas nunca fui boa em ouvir ninguém... 
E chego ao motivo dessas linhas: saudar o amor-sussurro que suturou as minhas feridas, curou-me daqueles terríveis infartos sentimentais e me ensinou o jeito mais lindo de se amar!

domingo, 19 de maio de 2013

A moça e o moço

Ilustração: Érica Rodrigues
A moça do sorriso ensolarado morava sozinha e tinha um gato. Cantava no chuveiro, na chuva, na cozinha. Amava fazer coisas, seja o que fosse. Agradava-lhe o processo de iniciar um trabalho e concluí-lo. Bordava, costurava, pintava, escrevia, compunha, tocava, plantava e produzia (com uma absurda paciência) seus próprios cadernos. Dava-lhes títulos e escrevia neles o que lhe vinha à cabeça. Ouvia discos inteiros à exaustão. Tinha a música como uma aliada, que estava sempre ali para completar os seus dias, a sua luz (que nessa época era fraquinha, fraquinha, coitada...). Mas faltava-lhe sempre alguma coisa, e ela não conseguia imaginar o quê. 
A moça do sorriso ensolarado construiu sua luz aos pouquinhos. Quando ainda não brilhava, dificilmente sorria. Deixava-se levar pela tristeza do mundo e pela maldade dos que julgavam o seu jeito livre, selvagem. Antes de ter luz própria, a moça chorava sozinha todos os dias, como num ritual. E foi aos tropeços que ela conseguiu tomar as rédeas da sua luminosidade e canalizá-la pro mundo. 
Quem trouxe o sol pro sorriso da moça foi o moço da cantiga bonita. Ele chegou num dia gris, trouxe uma begônia laranja e entregou para a moça. E foi então que o sorriso dela ganhou o sol e começou a brilhar mais do que ele. O moço da cantiga bonita nunca mais foi embora. Apesar de sofrer um pouquinho com a selvageria de espírito da sua companheira, ele está sempre ali por ela. O moço entendeu que a amada é livre, é simples e acima de tudo é frágil. E por amá-la em progressão geométrica, incumbiu-se do papel de protegê-la de todas as coisas feias do mundo, de nunca deixá-la chorar novamente. 
E foi assim que a moça do sorriso ensolarado virou uma mulher. E agora não mora mais sozinha com seu gato. O moço da cantiga bonita agora mora com os dois e garante que os dias sejam todos gris e que as begônias estejam sempre floridas. O moço da cantiga bonita toca violão de manhã e faz café. Acorda sempre feliz porque a felicidade é sua amiga. O moço da cantiga bonita pintou a vida de laranja pra combinar com o ensolarado do sorriso daquela pra quem ele compõe. 
E o céu se move bem devagarinho pra ver a felicidade, a cantiga e o sorriso dos dois. 


terça-feira, 30 de abril de 2013

Coração-sertão


Eu possuo um malfadado coração-sertão.

A realidade desse tipo de víscera, digo-lhe, é muito penosa. Falo com conhecimento de causa. Ela não precisa de muitos cuidados de seu dono, está eternamente a mercê das vontades externas. Vive à espera de chuva. Em período de seca parece morta, incapaz de fazer germinar o que quer que seja. No entanto, qualquer chuvinha, um simples sereno, consegue pintar tudo de verde. Um verde vivo, lindo de se ver!

Os corações-sertão possuem um poder de renovação digno da caatinga. É um fenômeno interessantíssimo de se estudar! Acostumaram-se a situações extremas, a passar pela vida com pouco. Contentam-se com o que lhes é dado. Agradecem florescendo o mais rápido que podem. Assim como o bioma que lhes dá nome, os corações-sertão são extremante gratos. Agradecem qualquer afago com vida e beleza de espírito. Apesar de não parecerem, eles são muito férteis.

Entretanto, quando a chuva (ou o afago) não vem, o coração-sertão pinta-se de cinza e fica seco, triste de se ver. Graças à sua incapacidade de fingir, a víscera demonstra claramente tudo o que se passa em seu íntimo. Quando em período de seca, o pobre músculo limita-se a murchar e adormecer... E espera. Espera pacientemente. Um olhador que não o conheça bem é capaz de jurar que ele já não vive. Mas o coração bravamente conserva-se ali, adormecido, embaixo de sol forte, a esperar qualquer pinguinho que o faça germinar. É esperançoso como o sertanejo.

É crime de morte enganar um coração-sertão. Não por ele mesmo, e muito menos por seu dono. O crime reside no fato de enganar quem confia tanto no que lhe é dado. Quem tem esperança demais. Tão acostumado que está em esperar pela chuva e confiar que ela um dia vem, o coitado coração coloca fé em tudo que lhe oferecem, sem garimpar o que lhe faz bem e o que é veneno.
O destino dos corações-sertão não é morrer de sede, mas morrer envenenados pela água que lhes foi presenteada com um sorriso no rosto e um brilho no olhar.

domingo, 28 de abril de 2013

O velho Francisco (Ticô)

Nas histórias, o herói é sempre aquele cara forte, jovem, galã, invencível, que consegue tudo o que quer... No entanto, desde criança, o meu exemplo de heroísmo é algo bem diferente desse estereótipo.
O meu herói tem calos nas mãos e rugas no rosto. Levanta antes do sol, todos os dias, e inicia sua labuta de tratar da terra e fazê-la florescer. É falível, como qualquer humano, mas aprende com os erros e é correto como poucos. É forte, mais bravo que a natureza.
Em seus mais de oitenta anos de caminhada, já viu morte, seca, pobreza, fome, violência... Venceu tudo isso com sua coragem de sertanejo. Desde menino aprendeu a importância do trabalho duro na construção do caráter do homem. Aprendeu na infância a pegar na enxada, plantar seu alimento e arrancar da terra o sustento de cada dia. Ainda jovem viu o pai ser assassinado e tornou-se o homem da casa. Cuidou da família, como faz até hoje...
Não é de muitos sorrisos. Guarda-os para quem os merece. Não gosta de fingimentos e é verdadeiro em cada gesto, olhar e palavra proferida. Há nele tanta serenidade, que consegue me fazer bem apenas com sua presença, em silêncio, ao meu lado.
O meu herói ensinou-me a amar a poesia, amar as histórias. O seu prazer em contá-las me fez perceber que era isso o que eu queria para a minha vida. Com ele aprendi a prezar pelo caráter, pela honra. Ensinou-me que o homem que não tem honra nada possui de belo, apenas de cruel. Me fez aprender na prática o significado de generosidade e grandeza. Mostrou-me que é possível presenciar a maldade humana sem deixar se contagiar por ela. Viu a feiura da vida e conservou a doçura do ser.
Agora, em qualquer lugar do mundo, o nome "Francisco" é conhecido. E quando esse nome é falado, logo o associam ao Papa jesuíta que agora toma a frente da Igreja de Pedro. Porém para mim, por toda a eternidade, o Francisco mais importante do mundo não é Papa, e nunca chegará a ser. Ele é um agricultor que acorda às 3:30h da manhã, dono de um caráter invejável, e profundamente terno em sua rudeza. Um verdadeiro herói. Acho que a palavra ternura vai sempre parecer com as suas mãos calejadas.


*Ao meu avô Francisco, que me ensinou a levar a vida de modo que eu possa me orgulhar dela.